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Reprodução

>> Capa livro “Garoto – Sinal dos Tempos”, Antonio &
Pereira, Funarte, 1982
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A partir de 2009 todos os próximos 28 de
Junho, dentro do Estado de São Paulo, serão comemorados como o Dia
do Choro. A idéia, surgida entre os membros do ativo Clube do
Choro de Santos, tornou-se realidade com a Lei Nº 13.447, de 10 de
março do corrente ano. Uma data mais que merecida. Serve
duplamente: para festejar a existência deste genuíno gênero
musical brasileiro – que tem em 23 de Abril uma data nacional, o
aniversário de Pixinguinha – e para homenagear uma importante
figura da nossa música popular brasileira, nascido exatamente
nessa data, no ano de 1915. A personalidade acalentada é o gênio
das cordas Aníbal Augusto Sardinha, mais conhecido como Garoto.
Para quem dá importância aos aspectos
culturais de um povo e, mais especificamente, para quem se
interessa pela magnífica escola do violão brasileiro, sabe da
importância dessa figura que, infelizmente, não é tão reconhecida,
tão estudada e reverenciada como deveria. Instrumentistas de
renome como Fabio Zanon, José Menezes, Geraldo Ribeiro e Paulo
Bellinati nunca deixaram de mostrar sua indignação pela pouca
divulgação da obra desse musico por aqui sendo, em compensação,
aplaudida em recitais no exterior.
Aníbal Augusto Sardinha nasceu na
capital paulista. Mais precisamente na Vila Economisadora, divisa
entre os bairros do Brás e da Luz, próximo do rio Tamanduateí. Era
o quinto rebento de um casal imigrante, Antônio Augusto Sardinha e
Adosinda dos Anjos Sardinha, e o primeiro a nascer no Brasil.
Filho de família lusa, seu pai, guarda-civil, tocava guitarra
portuguesa e banjo. Estimulou a musicalidade na casa. Franzino,
desde pequenino apresentava-se em festinhas para os amigos do
bairro. Ainda jovem, por volta dos 11 anos, teve que trabalhar
numa casa de instrumentos musicais para ajudar no orçamento
doméstico. Nessa época, desenvolvendo cada vez mais intimidade com
o instrumento, passou a ser conhecido como ‘o moleque do banjo’.
Foi também acompanhante de Capitão Furtado, em cafés do Brás e
arredores.
Em 1929 ele teve a oportunidade de se
apresentar num evento no Palácio das Indústrias, no Parque d.
Pedro II, onde estavam presentes importantes músicos da cidade,
como Canhoto, Mota e Zézinho do Banjo, o futuro Zé Carioca, que
inspiraria o personagem de Disney. Então, por volta desse período,
o cantor e violonista seresteiro Paraguassú, pioneiro no rádio
paulistano, convidou o jovem Aníbal Augusto para apresentações no
interior de São Paulo. Ao lado dessa grande estrela, começou
definitivamente a carreira artística de Garoto. No ano seguinte,
após um teste com Francisco Mignone, ele realizou sua primeira
gravação em disco, pela Parlophon, fazendo solo. Passou, então, a
tocar em emissoras locais, caso da pioneira Rádio Educadora
Paulista, da Rádio Record e também da Cruzeiro do Sul. Conheceu e
tornou-se amigo e parceiro de Aymoré (José Alves da Silva,
1908-1979) com quem fez várias gravações, tocou em diversos locais
do país e também no estrangeiro, caso da Argentina, quando
acompanharam Carlos Gardel.
Em 1938 Garoto e Aymoré seguem por
caminhos diferentes. E Garoto vai para o Rio de Janeiro. Em terras
fluminenses faz dupla com outro paulista, Laurindo de Almeida e é
convidado por nada mais, nada menos do que Carmen Miranda a viajar
para os Estados Unidos em excursão com o Bando da Lua. Esta foi a
viagem que possibilitou a explosão da artista na América do Norte.
E Garoto também encantou as platéias, especialmente os músicos de
jazz que iam aos shows para vê-lo solar violão. Em 1940 ele e
Carmen se apresentaram numa festa na Casa Branca para o presidente
Roosevelt. Todavia, Garoto volta ao Brasil. Passa a trabalhar na
Rádio Mayrink Veiga e, depois, foi fazer parte do cast da Rádio
Nacional, além de manter suas gravações próprias e como
acompanhante. Essa rotina de intenso trabalho era uma constante em
sua vida.
Entre outras experiências, no ano de
1952 integrou o Trio Surdina, produzido por Paulo Tapajós e
formado por Fafá Lemos (violino) e Chiquinho do Acordeon. Em 1953
participou do primeiro concerto para violão brasileiro tocado no
Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com a regência da orquestra
sendo de Eleazar de Carvalho. Ainda no mesmo ano, lançou com sua
bandinha o dobrado "São Paulo Quatrocentão" e conseguiu um
inesperado sucesso de vendas, que foi reforçado pelo registro,
meses depois, da cantora Hebe Camargo, aproximando-se de 1 milhão
de cópias vendidas, um histórico fenômeno.
Quando pensou que o sucesso pudesse
diminuir um pouco a carga de trabalho para curtir um descanso foi
atacado de forma fulminante por um infarto. Tinha apenas 39 anos.
Garoto foi um gênio das cordas.
Multiinstrumentista tocou banjo, cavaco, bandolim, violão, violão
tenor, violão elétrico, guitarra havaiana etc. Mais que um
virtuose, foi compositor inspirado. Dele são “Duas Contas”, “Gente
Humilde”, “Amoroso”, ”Desvairada”, “Tristezas de um Violão”, “Nick
Bar” e “Canção de Portugal”, as duas últimas com José
Vasconcellos, entre muitas outras pérolas. Para muitos, Garoto
tinha uma interessante característica: era um permanente
estudioso, pois, mesmo assoberbado com a profissão, sempre
encontrava espaço para aprender estrutura musical, arranjo,
orquestração. Sua vida, interrompida tão bruscamente, deixou
indícios de novas idéias que surgiam do ponto de vista de
estruturas harmônicas, de grande inventividade, onde, por exemplo,
a bossa nova já estava presente antes de Tom Jobim e João
Gilberto. Esse é o homenageado com a data de 28 de Junho no estado
paulista. Viva o choro, viva Garoto. E que ele sirva de exemplo:
mesmo sendo um reconhecido mestre, sempre soube que havia mais
para aprender e criar.
São Paulo, 04 de Agosto de 2009
Prof. José de Almeida
Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências
Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em
Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista
pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada
Online.
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