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Por Prof.José de Almeida Amaral Júnior*


Terça - feira | 04 AGOSTO 09

Notas Quotidianas: Economia, Cultura e Sociedade
“Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto e o Dia do Choro Paulista”

Reprodução

>> Capa livro “Garoto – Sinal dos Tempos”, Antonio & Pereira, Funarte, 1982

A partir de 2009 todos os próximos 28 de Junho, dentro do Estado de São Paulo, serão comemorados como o Dia do Choro. A idéia, surgida entre os membros do ativo Clube do Choro de Santos, tornou-se realidade com a Lei Nº 13.447, de 10 de março do corrente ano. Uma data mais que merecida. Serve duplamente: para festejar a existência deste genuíno gênero musical brasileiro – que tem em 23 de Abril uma data nacional, o aniversário de Pixinguinha – e para homenagear uma importante figura da nossa música popular brasileira, nascido exatamente nessa data, no ano de 1915. A personalidade acalentada é o gênio das cordas Aníbal Augusto Sardinha, mais conhecido como Garoto.

Para quem dá importância aos aspectos culturais de um povo e, mais especificamente, para quem se interessa pela magnífica escola do violão brasileiro, sabe da importância dessa figura que, infelizmente, não é tão reconhecida, tão estudada e reverenciada como deveria. Instrumentistas de renome como Fabio Zanon, José Menezes, Geraldo Ribeiro e Paulo Bellinati nunca deixaram de mostrar sua indignação pela pouca divulgação da obra desse musico por aqui sendo, em compensação, aplaudida em recitais no exterior.

Aníbal Augusto Sardinha nasceu na capital paulista. Mais precisamente na Vila Economisadora, divisa entre os bairros do Brás e da Luz, próximo do rio Tamanduateí. Era o quinto rebento de um casal imigrante, Antônio Augusto Sardinha e Adosinda dos Anjos Sardinha, e o primeiro a nascer no Brasil. Filho de família lusa, seu pai, guarda-civil, tocava guitarra portuguesa e banjo. Estimulou a musicalidade na casa. Franzino, desde pequenino apresentava-se em festinhas para os amigos do bairro. Ainda jovem, por volta dos 11 anos, teve que trabalhar numa casa de instrumentos musicais para ajudar no orçamento doméstico. Nessa época, desenvolvendo cada vez mais intimidade com o instrumento, passou a ser conhecido como ‘o moleque do banjo’. Foi também acompanhante de Capitão Furtado, em cafés do Brás e arredores.

Em 1929 ele teve a oportunidade de se apresentar num evento no Palácio das Indústrias, no Parque d. Pedro II, onde estavam presentes importantes músicos da cidade, como Canhoto, Mota e Zézinho do Banjo, o futuro Zé Carioca, que inspiraria o personagem de Disney. Então, por volta desse período, o cantor e violonista seresteiro Paraguassú, pioneiro no rádio paulistano, convidou o jovem Aníbal Augusto para apresentações no interior de São Paulo. Ao lado dessa grande estrela, começou definitivamente a carreira artística de Garoto. No ano seguinte, após um teste com Francisco Mignone, ele realizou sua primeira gravação em disco, pela Parlophon, fazendo solo. Passou, então, a tocar em emissoras locais, caso da pioneira Rádio Educadora Paulista, da Rádio Record e também da Cruzeiro do Sul. Conheceu e tornou-se amigo e parceiro de Aymoré (José Alves da Silva, 1908-1979) com quem fez várias gravações, tocou em diversos locais do país e também no estrangeiro, caso da Argentina, quando acompanharam Carlos Gardel.

Em 1938 Garoto e Aymoré seguem por caminhos diferentes. E Garoto vai para o Rio de Janeiro. Em terras fluminenses faz dupla com outro paulista, Laurindo de Almeida e é convidado por nada mais, nada menos do que Carmen Miranda a viajar para os Estados Unidos em excursão com o Bando da Lua. Esta foi a viagem que possibilitou a explosão da artista na América do Norte. E Garoto também encantou as platéias, especialmente os músicos de jazz que iam aos shows para vê-lo solar violão. Em 1940 ele e Carmen se apresentaram numa festa na Casa Branca para o presidente Roosevelt. Todavia, Garoto volta ao Brasil. Passa a trabalhar na Rádio Mayrink Veiga e, depois, foi fazer parte do cast da Rádio Nacional, além de manter suas gravações próprias e como acompanhante. Essa rotina de intenso trabalho era uma constante em sua vida.

Entre outras experiências, no ano de 1952 integrou o Trio Surdina, produzido por Paulo Tapajós e formado por Fafá Lemos (violino) e Chiquinho do Acordeon. Em 1953 participou do primeiro concerto para violão brasileiro tocado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com a regência da orquestra sendo de Eleazar de Carvalho. Ainda no mesmo ano, lançou com sua bandinha o dobrado "São Paulo Quatrocentão" e conseguiu um inesperado sucesso de vendas, que foi reforçado pelo registro, meses depois, da cantora Hebe Camargo, aproximando-se de 1 milhão de cópias vendidas, um histórico fenômeno.

Quando pensou que o sucesso pudesse diminuir um pouco a carga de trabalho para curtir um descanso foi atacado de forma fulminante por um infarto. Tinha apenas 39 anos.

Garoto foi um gênio das cordas. Multiinstrumentista tocou banjo, cavaco, bandolim, violão, violão tenor, violão elétrico, guitarra havaiana etc. Mais que um virtuose, foi compositor inspirado. Dele são “Duas Contas”, “Gente Humilde”, “Amoroso”, ”Desvairada”, “Tristezas de um Violão”, “Nick Bar” e “Canção de Portugal”, as duas últimas com José Vasconcellos, entre muitas outras pérolas. Para muitos, Garoto tinha uma interessante característica: era um permanente estudioso, pois, mesmo assoberbado com a profissão, sempre encontrava espaço para aprender estrutura musical, arranjo, orquestração. Sua vida, interrompida tão bruscamente, deixou indícios de novas idéias que surgiam do ponto de vista de estruturas harmônicas, de grande inventividade, onde, por exemplo, a bossa nova já estava presente antes de Tom Jobim e João Gilberto. Esse é o homenageado com a data de 28 de Junho no estado paulista. Viva o choro, viva Garoto. E que ele sirva de exemplo: mesmo sendo um reconhecido mestre, sempre soube que havia mais para aprender e criar.


São Paulo, 04 de Agosto de 2009

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação, Colunista do Jornal Cantareira, Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600 Khz e escreve semanalmente para o Mundo Lusíada Online.


 

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